Com a promulgação da Lei Complementar nº 214/2025, a tão falada reforma tributária saiu do papel e já tem data para começar a valer: 2026. Mas, enquanto muitos ainda dormem no ponto, um grupo crucial para a economia brasileira está prestes a ser severamente impactado — os trabalhadores autônomos.
Advogados, dentistas, professores particulares, designers, eletricistas, motoristas de app, entre tantos outros... a nova estrutura tributária ameaça inviabilizar por completo esse modelo de atividade.
Esquecidos e sacrificados
Na ânsia de reorganizar o sistema, o Congresso parece ter "esquecido" dos autônomos. Enquanto caminhoneiros e nanoempreendedores (com receita bruta até R$ 54 mil/ano) receberam tratamento especial, o restante da categoria foi jogado aos leões.
Veja só a carga tributária que os autônomos terão que suportar com a reforma:
Faça as contas: com pouca ou nenhuma possibilidade de usar créditos tributários (como as empresas podem), a carga efetiva ultrapassa os 40% em muitos casos. Isso sem considerar contador, folha de pagamento, conselho profissional, obrigações acessórias...
Uma estrutura para PJ, aplicada ao CPF
É como se o Estado passasse a exigir de uma Kombi o desempenho de um caminhão Scania. O autônomo não tem estrutura de empresa, não tem respaldo jurídico de uma PJ e agora vai pagar mais tributo que muita empresa do Simples Nacional.
Exemplos reais mostram que um advogado pode pagar até R$ 46 mil só de tributos, ao faturar R$ 119 mil. Uma alíquota real de 39%. E ele ainda é obrigado a contratar contador, gerar nota, apurar débitos, manter livro-caixa... e tudo isso com a corda no pescoço.
A lupa da fiscalização, a brecha dos espertos
A complexidade do novo sistema e a obrigatoriedade de emissão de nota fiscal podem abrir um novo mercado para fraudes fiscais, como notas frias para geração de crédito em favor de empresas — algo que hoje é minimizado no ISS cumulativo.
E o risco não é só financeiro. O autônomo responde com todo o seu patrimônio pessoal, enquanto a PJ tem responsabilidade limitada. Ou seja: risco maior e carga maior = receita para o colapso!
Empresário, fique atento: isso também afeta você
Muitos empresários dependem dos serviços de autônomos: técnicos, consultores, transportadores, profissionais liberais. Se essas atividades forem inviabilizadas, os custos vão subir, os serviços vão escassear e os profissionais qualificados migrarão para a informalidade ou para o Simples Nacional, tornando-se, na prática, pequenas empresas com estrutura frágil.
E mais: com a entrada dos autônomos no IBS/CBS, você, empresário, poderá sim tomar crédito dessas notas... mas isso só será possível se o autônomo arcar com todos os custos da burocracia. Será que ele vai conseguir?
Conclusão: uma bomba silenciosa que precisa ser desarmada
A reforma tributária é necessária, sim. Mas não pode ser construída às custas da base trabalhadora autônoma, que movimenta bilhões e sustenta, muitas vezes, os próprios negócios que hoje estão no topo da cadeia produtiva.
É hora dos autônomos se organizarem, das entidades de classe se manifestarem e do Congresso ajustar urgentemente esse erro técnico antes que a bomba exploda em 2026.
Empresário que se antecipa, sobrevive. Empresário que ignora, paga a conta. Vamos abrir os olhos antes que seja tarde demais.
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