Por décadas ouvimos que o Brasil é o “país do futuro”. Mas o tempo passou, o futuro chegou — e o país ficou. Ficou no serviço, no improviso, no imediatismo. Uma economia que parece estar sempre prestes a decolar, mas que não passa de um voo de galinha: curto, instável, com pouso forçado na realidade crua de um modelo que não investe no essencial.
Dados recentes da Confederação Nacional de Serviços (CNS) escancaram o novo retrato da economia brasileira: os serviços já respondem por 57% dos empregos formais no país. São mais de 31 milhões de postos de trabalho no setor — um número impressionante, mas que precisa ser lido com cautela e criticidade.
Sim, o setor de serviços é vital, representa dinamismo, urbanização e consumo. Mas quando se torna quase a única base da estrutura produtiva nacional, temos um sinal amarelo aceso.
A desconstrução da indústria
O Brasil, que já foi símbolo de industrialização na América Latina, tem perdido sistematicamente sua capacidade de produzir bens com valor agregado. A indústria de transformação — coração da geração de tecnologia, inovação e empregos qualificados — segue encolhendo e pagando salários cada vez menores. Segundo os dados da própria CNS, os rendimentos médios na indústria são 18,9% inferiores aos do setor de serviços.
Ora, quando o setor que deveria puxar o crescimento do PIB, fomentar exportações e desenvolver tecnologias perde força, o país vai, pouco a pouco, se tornando refém do consumo interno e da baixa produtividade.
O falso conforto dos bons números
De janeiro a maio de 2025, o setor de serviços cresceu em quase todas as frentes: foram mais de 682 mil novos postos só nos serviços privados não financeiros. Os serviços de transporte criaram outros 107 mil empregos, e os serviços de informação, cerca de 31 mil.
Mas... a pergunta que não cala: esse crescimento gera competitividade internacional, eleva o padrão educacional e tecnológico, ou apenas máscara nossa fragilidade industrial?
A resposta é incômoda. O Brasil parece ter se conformado com uma economia de base rasa, onde vendemos café e soja, e voltamos a importar chips, tecnologia e máquinas. E o que era para ser um ciclo virtuoso, virou um labirinto de dependência.
Política pública que desindustrializa
Nos últimos anos, o Brasil falhou em criar uma política industrial de longo prazo. Investimentos escassos, burocracia, carga tributária complexa e uma instabilidade jurídica gritante — como vimos no recente julgamento do STF sobre a inclusão de PIS/Cofins na base da CPRB — tornam o ambiente hostil para quem quer produzir no Brasil.
O que esperar?
Se não houver uma estratégia clara e corajosa de reindustrialização, o voo de galinha continuará sendo o retrato mais fiel da nossa economia: animador no começo, mas sempre com pouso previsível.
Enquanto outros países investem em tecnologia, energias renováveis, bioeconomia e digitalização industrial, o Brasil continua vendendo o almoço para pagar a janta.
Precisamos recuperar nossa capacidade de produzir, inovar e competir — antes que sejamos só mais um grande mercado de consumo, empacotado para o mundo.
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