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Arte & manhas | Do poema que não será escrito

Por: Luís Bogo
20/11/2021 14:44
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Certa vez, alguém disse a ela que se um dia lhe escrevesse um poema de amor, não escreveria palavras piegas, frases feitas retiradas de um velho almanaque ou copiadas de clichês impressos em sacolas de supermercados, para-choques de caminhões ou da ‘çabedoria fashion’ comumente estampada em T-shirts.

Disse-lhe, também, que se algum dia fizesse este poema, gostaria que o mesmo a penetrasse com a sutileza de um tímido raio de luz capaz de iluminar profunda escuridão; que adoçasse sua vida com aromas de anis e camomila e tocasse o seu peito com leveza e calor de cashmere, pois tais versos trariam o desejo de lhe mostrar algo novo: não apenas repetições de imagens, acordes ou ternos gracejos que algum dia possam ter alterado o ritmo do seu coração.

Se algum dia, então, esse alguém lhe escrevesse tal poema, talvez pudesse brincar com seu nome, com as rimas que ele permite, e com outras malícias da rica língua que falamos; mas, certamente, descartaria a ideia por tal recurso ser raso e pouco original, lembrando-se que seus versos teriam que ser puros, límpidos e fluidos como os ribeirões.

Nisso tudo pensaria este alguém, caso viesse mesmo a lhe escrever um poema de amor, porque assim como o rio que serpenteia montanha abaixo, o amor também deve fluir como água que ultrapassa as pedras aparentes da superfície, umedece as margens e chega às profundezas, tocando as delicadezas, reentrâncias e as férteis tocas que se ocultam em seu leito.

Não temesse parecer ridículo, porque já foi dito que todas as cartas de amor são ridículas, se atreveria a escrever uma, recheada de versos um tanto desconexos que talvez dissessem mais ou menos assim: “Agora vivo num jardim, buscando beijar a pétala de tempo que por vezes cai sem que haja tempo de sentir seu perfume. No meu sangue, é como se pequenos glóbulos de amor silente se equilibrassem no fio da madrugada. E meu tímido pulsar confunde-se com o discreto arrulhar de um noturno pássaro...”

Então, acabaria por desistir, amassando ou rasgando o papel – ridículo, ridículo, ridículo! –, pois mesmo sabendo que todas as cartas de amor são ridículas, a sua não haveria de ser a mais ridícula de todas.

Enquanto vivesse o dilema atroz onde se colocavam a possibilidade de escrever uma ridícula carta de amor e parecer ridículo, e a possibilidade de não escrever uma belíssima carta de amor e sentir-se ridículo para sempre por não ter expressado seu desejo e sentimento, continuaria a olhar para o céu, percebendo que a luz daquela estrela, morta há milhões de anos, insistia ainda em beijar sua retina.

Pensou que alguém pudesse passar pela calçada naquele momento, falando para si mesmo – o tempo está firme –, o que o faria concordar, melancólico e murmurante: – está firme em seu propósito de continuar passando e passando e passando, como se nada se passasse enquanto ele passa.

Voltou ao papel determinado a se mostrar ridículo e se pôs a rabiscar mais alguns versos que, unidos, costurados ou bordados de alguma forma, talvez viessem a compor uma carta ridícula ou um ridículo poema de amor:

“Sou outono, estação dormente para que em mim te alimentes. // Aproveita-me enquanto ainda guardo algumas folhas sadias. // Em breve serei húmus para que o que te ensinei frutifique”.

Entendia-se totalmente ridículo naquele instante, mas tinha a prazerosa e consciente percepção de que seu coração ainda pulsava. Olhando para o que já rascunhara, arriscou-se novamente ao papel que o desafiava, escrevinhando com mão trêmula e vacilante:

“... sentimento não é palavra que se possa balbuciar, embora o meu coração esteja a gaguejar agora no meu peito...

No íntimo, acabrunhado e ridículo, sabia que todo desejo acaba por transformar-se em palavra que jamais encontrará eco na realidade, mas mesmo assim arriscou-se a confessar, em uma única e derradeira linha: “o que hoje sinto por você é o que alimentará minha virtude para todo o sempre”.


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