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Arte & manhas | Fatos marcantes e suas verdades

Por: Luís Bogo
28/12/2021 16:35
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Reprodução Myrna Loy (interpretando Milly Stephenson), abraça Fredric March (Al Stephenson), em "Os Melhores Anos de Nossas Vidas", filme de 1946
Myrna Loy (interpretando Milly Stephenson), abraça Fredric March (Al Stephenson), em "Os Melhores Anos de Nossas Vidas", filme de 1946

A cada fim de ano jornais, revistas, sites e telejornais gastam páginas e páginas, caríssimos minutos, montando retrospectivas. O passado recente é reavivado pela compilação de matérias que retratam momentos curiosos do ano que termina e que jamais se repetirão, além de fatos históricos que podem se repetir ou não, pois dizem por aí que “a história se repete”.

Nesta época, os noticiários relembram episódios e intrigas políticas e eleitorais; façanhas esportivas individuais ou coletivas; catástrofes naturais; acidentes aéreos, marítimos, rodoviários. Efêmeros romances de celebridades (com os devidos comentários e indevidas fofocas); crimes passionais e ambientais; descobertas científicas, avanços tecnológicos e crises econômicas provocadas por guerras e outros conflitos de interesses.

Com relação a 2021, muito ainda há de se falar da crise sanitária agravada pela inépcia e pelo comportamento retrógrado de governos que pouco se importam com a saúde de seus súditos, tampouco se lixam se muitos deles voltaram a se alimentar com sobras garimpadas e disputadas em lixeiras.

Porém, para ser marcante, o acontecimento não precisa ser dramático, grandioso ou provocar ruído. Não necessita fazer espalhafato de explosão, levantar poeira de desabamento ou avalanche, nem acionar sirenes de emergência.

O momento marcante pode ser aquele em que o poeta percebe que “Uma flor nasceu na rua! / Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. / Uma flor ainda desbotada / ilude a polícia, rompe o asfalto. / Façam completo silêncio, paralisem os negócios, / garanto que uma flor nasceu”*.

E será sempre marcante, também, o silencioso instante em que se encontra o próprio nome na lista de aprovados no vestibular ou se recebe o resultado positivo para o teste de gravidez.

Pode ser marcante o átimo em que a estrela cadente se apagou no mar, afogando aquele pedido que se fez em segredo, enquanto ouvíamos alguém cantar “You still look like a movie / You still sound like a song / My God, this reminds me / Of when we were young”**.

Pode ser verdadeiro o ditado “a última impressão é a que fica”, mas os momentos mais marcantes serão sempre os primeiros: o primeiro dia de aula (com seu respectivo professor ou professora); a primeira bicicleta, telefone, computador... o primeiro beijo e o primeiro amor.

É óbvio que os fatos mais marcantes e relevantes para uma retrospectiva anual são aqueles que atingiram um número maior de pessoas, que tiveram reflexos no coletivo, afetando diretamente a maneira de viver em sociedade. Neste sentido, a pandemia – que começou a nos assolar em 2020 – continuou a ser o fato social mais marcante em 2021.

Mas, alguns momentos particulares também podem significar fatos marcantes na trajetória de cada um. Assim, faço um breve relato sobre como o trivial pode se transformar em algo marcante: no início de 2021, um ancião recebeu um abraço, fazendo-o reacender na memória algum calor de brasa nele adormecida, reavivando na carne todo o afeto encerrado em seu peito ainda juvenil.

Por um momento duvidou que tivesse mesmo acontecido, pois naquele abraço não se sentiu como um grão de areia perdido e envolto pelo universo, mas como o grão de areia que fazia todas as estrelas do céu orbitarem em torno de si. Passada a emoção, terminou por confessar à menina que o abraçara: “– Este foi o abraço mais gostoso que recebi em toda a minha vida”.

Em si mesmo, o fato já seria digno de fazer parte de seu inventário anual. Mas, para ele, o detalhe mais marcante foi a resposta da menina: “– Talvez seja porque eu quisesse mesmo te dar o abraço”.

Então, que venham outros fatos marcantes em 2022: e que sejam em forma de beijos e abraços amorosos ou mesmo singelos apertos de mãos. E que haja verdade em cada um destes gestos. Receba o meu abraço e feliz ano novo.


* O poema citado é “A flor e a náusea”, de Drummond.

** A canção é “When we were young”, de Adele. A seguir a tradução do trecho citado: “Você ainda se parece com um filme / Você ainda soa como uma canção / Meu Deus, isto me lembra / De quando éramos jovens”.


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