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Arte & manhas | Adeus, 2021

Por: Luís Bogo
30/12/2021 14:30
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Divulgação

Confesso que não me é prazeroso ou agradável começar a última crônica deste ano lembrando os 618.817 mortos pela Covid-19 no Brasil, contabilizados até a tarde do dia 29/12. 2021 foi o ano em que mais se disse adeus neste país.

Então, Adeus, 2021!

Que o Corona-vírus era letal, já sabíamos desde março de 2020, embora alguns o encarassem apenas como agente transmissor de “gripezinha”.

Mas, neste último ano, os amantes das guerras desertaram no momento de enfrentar uma situação emergencial, que exigia – e ainda exige – ações eficazes, embasadas em conhecimentos científicos, e não no negacionismo medieval e terraplanista dos primeiros momentos da crise.

Ações eficazes que não contemplem pajelanças, como a administração de vermífugos para tratamento dos pulmões ou aplicação de ozônio em vias não respiratórias, como as que ocorreram em momentos subsequentes.

Esses amantes das armas e das milícias, parecem ter o intestino alojado em outra parte do corpo, não exatamente em seus ventres. Talvez um eletroencefalograma nos decifre este mistério.

Já que falei em guerras, vamos a uma comparação: em menos de dois anos, a pandemia matou 620 mil pessoas apenas no Brasil. Bem mais do que o total de mortos na Guerra do Paraguai, a maior já ocorrida na América Latina, que ceifou 440 mil homens em cinco anos de batalhas. Na Guerra do Vietnã, morreram 58 mil americanos. No Afeganistão, 2,8 mil. No Iraque, 4,4 mil. E, somados, esses conflitos duraram mais de três décadas.

Aqui, com armas eficazes e disponíveis para evitar a transmissão e a disseminação do vírus da forma catastrófica que acompanhamos, alguns homens de farda, lotados em postos e ministérios para os quais não apresentam as necessárias credenciais, não estiveram alertas para erguerem suas canetas no tempo propício, de modo a minimizar os efeitos da doença que, mais uma vez, atingiu de forma mais violenta os menos favorecidos.

Primeira conclusão: armas são feitas para matar e vacinas são armas para salvar. Tudo, então, passa pela valoração que se dá à vida, principalmente à do próximo. E, mais ainda, as vidas que nos são confiadas pela investidura de um cargo.

É com um misto de tristeza e revolta que faço este desabafo de fim de ano, e solto meu berro de protesto. Torquato Neto escreveu: "Leve um homem e um boi ao matadouro; aquele que berrar é o homem. Mesmo que seja o boi".

Sim, embora me seja mais agradável falar de Arte e Poesia, acredito que o papel de quem escreve, seja jornalista ou poeta bissexto, é se indignar com as atrocidades e injustiças e não se alienar de seu tempo.

A vida é nosso bem maior e todos os nossos esforços devem ser na direção de que seja preservada e vivida com dignidade. Por isto, é fundamental que nos rebelemos quando o direito a ela é desrespeitado, como fazem alguns governantes ao negarem o inegável, ao incentivarem ações violentas, ao disseminarem mentiras, ao promoverem armas ao invés de educação, saúde e ciência.

Neste fim de ano, chegou às raias do absurdo a negativa do governo federal ao auxílio que a Argentina ofereceu ao povo baiano. Por questões políticas – pois o governo brasileiro não se alinha ideologicamente com o recém-eleito governo argentino –, recusou-se o envio de equipes especializadas no resgate de pessoas atingidas por catástrofes naturais e, também, de especialistas em saúde pública.

Em meio a esta enxurrada de ações que atentam contra a dignidade e a vida do povo brasileiro, deixo aqui a minha gota de protesto. Que venham 2022, 23, 24, 25... porque serão necessários muitos anos até que nos recuperemos destes últimos, quando fomos literalmente pisoteados pelos coturnos da ignorância.

É triste pensar que os melhores balanços de 2021 no Brasil foram os das funerárias.


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