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Arte & manhas | Delivery

Por: Luís Bogo
04/01/2022 17:16
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Divulgação Pintura de Marc Chagall
Pintura de Marc Chagall

Terminei 2021 falando de coisa ruins. Perdão pelo desabafo. Mas nada nos impede de acreditar que este ano será melhor, embora não perfeito.

Em tempos de entregas em domicílio, quando é mais seguro pedir a pizza pelo motoboy do que desfrutá-la na alegre mesa da pizzaria de toalhas quadriculadas em verde, vermelho e branco, veio-me a ideia de escrever sobre nossas escolhas e nossas entregas.

No caso da pizza e do motoboy, a questão é simples: por experiências anteriores ou recomendações de terceiros já se conhece a qualidade do produto e a velocidade da entrega. Faremos a escolha mais racional ao pedi-la, inclusive com relação aos preços dos serviços.

Na vida pessoal, quando o retrogosto da decisão afeta latitudes, esferas e órbitas não aquelas retratadas e documentadas em livros de física, chegaremos a um patamar inatingível tanto às 125cc do entregador quanto aos propulsores galácticos de Musk e companhia.

Assim, no dia a dia, não adianta apostar em recheio de champignon ao escolher mozzarela. Mas, quando o ser humano resolve escolher o improvável – apostar no cogumelo onde sabe que só haverá queijo –, apostar no mais difícil e ficar a vida inteira à espera de um milagre, acaba por renunciar a diversas outras alternativas que porventura poderia escolher ao longo da existência, renunciando à felicidade possível, sabidamente composta por delícias e incompletudes que se entremeiam.

Neste sentido, é falso dizer que somos seres racionais, embora tenhamos esta ilusão. Na verdade, somos essencialmente emocionais, apesar de nossas emoções serem processadas no cérebro antes de se manifestarem em lágrimas ou arrepios. São os motores da emoção que nos movem pelos caminhos da raiva, da tristeza, da ira e do amor. E o amor e a paixão nos atingem no alvo da intimidade, demonstrando todas as vulnerabilidade e fraquezas inerentes a cada um.

O escritor e filósofo George Bataille afirmou que “a ação decisiva é o desnudamento”. E, ao analisarmos sua obra com um pouco mais de atenção, percebemos que esta frase nos leva além da preocupação sobre o que fazer com o próprio corpo, pois em “A História do Olho” há outra afirmação esclarecedora sobre o seu pensamento: "um homem que ignora o erotismo é tão estranho quanto um homem sem experiência interior".

Desnudar-se, então, é fundamental. Desta forma, entregar-se ao amor é compartilhar a psique. E o melhor que pode acontecer depois que se entrega a alma desnudada é surpreender-se. Porém, o ato de entregar-se a alguém ou a alguma atividade nem sempre leva a novas descobertas sobre o outro ou sobre o objeto de interesse, mas ao aperfeiçoamento da relação que mantemos com cada um e à consequente intensificação dos sentimentos e vínculos.

Embora a felicidade não se resuma a sucessão ininterrupta de alegrias e prazeres, ela é o objetivo final de nossas escolhas individuais. Ao desejarmos algo, automaticamente renunciamos a outro prazer ou mesmo ao conforto de não desejar. E a renúncia, além de potencialmente dolorosa, também não oferece garantias de que a perda de certa satisfação presente será recompensada com maiores, futuros, muitas vezes longínquos prazeres.

Neste momento será possível que surja a sensação de frustração e vazio. A insuportável companhia do “nada”.

O fato é que neste sublime exercício de viver, tão exigente de escolhas e renúncias, a única atitude que nos resta é buscar o tudo livrando-se de tudo. Desnudando-se e entregando-se.

Talvez, a felicidade, seja o mero prazer de entregar-se: um eterno aprendizado.


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