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Arte & manhas | “Sei que por onde eu passo, deixo rastros”

Por: Luís Bogo
06/05/2022 16:53 - Atualizado em 06/05/2022 16:53
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Divulgação Adão e Eva, Gustav Klimt, óleo sobre tela, 1917
Adão e Eva, Gustav Klimt, óleo sobre tela, 1917

Não. Não foi uma serpente escondida entre as folhas da macieira quem me soprou estas palavras. Foi uma fada de cabelos muito negros e dentes muito brancos. Era tão linda que sua matéria parecia sonho. Estava ali, bem perto, ao mesmo tempo impalpável.

Não é exatamente poetisa, mas criou o melhor verso que vi ou vivi nos últimos tempos. O que deveria ter sido apenas mais um bate-papo trivial via whatsapp, de repente, não mais que de repente, conseguiu me abalar profundamente: - Eu guardo amor, versejou na tarde fria.

Dizia outras coisas profundas e simples, carregadas de sabedoria. Sabedoria que eu não imaginava existir naquele coração de criança. Sim, era uma fada criança que através de palavras simples descortinava um mundo que eu já conheci, mas que me parecia cada vez mais opaco, nublado e tenso, fazendo-me sentir apenas uma rasa fonte de dor

Momentos antes de ouvir ela dizer “eu guardo amor”, eu havia dito a mim mesmo que não amaria mais ninguém, sabendo que mentia a mim mesmo, porque mesmo em meio a catástrofes e escombros ainda consigo escavar meu peito e encontrar pingos de amor que acabam por inundar meus olhos.

Sua juventude e jovialidade me surpreendiam e assombravam. Então, decidi buscar dentro de mim as palavras esquecidas que poderiam servir como moeda de troca àquele verso tão lindo que, na verdade, ela nem sabia que era verso, pois disse-o de forma muito natural, como se estivesse dirigindo singelo bom dia ao homem de chapéu que lhe cruzasse a calçada.

Dor é coisa ruim, mas existe. E é sentida, profundamente sentida. Há aquelas que nos pegam pelo nervo ciático, que nos percorre da nuca aos calcanhares. E há aquela que nos atinge a alma.

Ao lhe agradecer pela frase inspiradora, a garota me destruiu, dizendo, simplesmente, sei que por onde passo deixo rastros.

Penso que jamais serei capaz de retribuir versos tão bonitos à altura. Tenho algum talento, mas o peito frágil. Às vezes me sinto impotente para responder às coisas lindas que o mundo me oferece.

Não como serpente, mas como pássaro, tentarei deixar meu rastro: no ar.



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