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Arte & manhas | Palavras sobre a arte e as doenças do olhar

Por: Luís Bogo
27/05/2022 18:02
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Divulgação Cena do "Melhor é Impossível", com a Helen Hunt e o Jack Nicholson
Cena do "Melhor é Impossível", com a Helen Hunt e o Jack Nicholson

Há algum tempo escrevi que o amor é um cisco no coração. Estava enganado. Talvez seja conjuntivite: um tipo de inflamação que, às vezes, demanda anos de colírio para os olhos e outros tantos de calmantes para os nervos.

Amor não é ciência, é vivência: e é comum dedicarmos anos ou décadas de vida a coisas incompreendidas, que se justificam apenas no espelho. De modo geral, o amor nasce de imagem ou palavras sedutoras, instalando-se em nós como um tumor benigno, impossível de extirpar.

Nas madrugadas, ao pensar no assunto, sinto lanternas que, sobrepondo-se à escuridão e iluminando neurônios adormecidos, despertam imagens, vozes, remotas lembranças de algum lugar que, em algum momento, ofereceram prazer sensível ao corpo e à alma.

A função do artista, seja ele músico, escritor, escultor ou pintor – além de captar um momento especial – é forçar a memória de quem está em seu entorno para o poder da beleza, às vezes explícita e por outras subjetiva.

Ao produzir sua obra, o artista vai buscar elementos históricos e ancestrais que possam acrescentar algum conhecimento a quem tiver contato com o resultado da sua obra; seja livro, vídeo, filme ou música. Entretanto, será sempre visto pelo rasgo do olho. No mundo capitalista, ele é o marginal, o que nada produz.

Arte produz conhecimento. Mas, infelizmente, vivemos em uma sociedade emburrecida, contaminada por conceitos que se contrapõem ao conhecimento ou à busca do conhecimento. Vivemos em um mundo no qual notícias falsas valem mais do que a Ciência e a verdade verdadeira. O resultado disso, é morte, literalmente, em todos os sentidos, basta que olhemos para o panorama criado pela divulgação de notícias falsas sobre a Covid-19.

Quando se renega – ou não se procura – informação de fonte fidedigna, que pode ser checada e analisada, o sujeito se dispõe a fazer parte de um rebanho imbecil que parte ao abatedouro sem berrar. Lembro agora de Torquato Neto: “Levem um homem e um boi ao matadouro. O que berrar menos merece morrer. É o boi".

Então, voltando às funções básicas dos artistas, que são disseminar cultura, conhecimento e amor, é preciso destacar a capacidade que estes seres especiais adquiriram durante suas trajetórias para que pudessem transmitir ao mundo algumas percepções que poderiam parecer irrelevantes, caso não fossem anotadas, rabiscadas, encenadas ou musicadas.

O artista pode fazer com que o olho sinta o que o coração ainda não viu ou, principalmente, que o coração sinta o que o olho viu e não deu a devida atenção, tenha sido pela pressa do piscar ou pelo excesso de informações que lhe chegam deste mundo repleto de outdoors.

Os artistas nos dizem muitas coisas relevantes, sem mesmo precisar de palavras, e nos sensibilizam através de gestos, olhares, malabarismos, sons ou tomadas de câmera que trazem novas visões do mundo. Desta forma, acabam por nos marcar de forma inesquecível, seja na comédia ou na tragédia.

Geralmente, exercem a arte pela arte, pois 99% deles são mal remunerados e as exceções são tomadas como exemplos por governantes estúpidos e cabotinos para justificar a falta de apoio à Cultura e à Educação em geral.

Sem exceção, quem se dispõe a escrever um poema, uma letra de música, ou preencher uma pauta com notas de uma melodia, merece tanto respeito quanto quem lava louça ou dispõe tijolo sobre tijolo para construir um muro.

Quando expõe um dilema amoroso, por exemplo, o poeta não fala apenas de si, mas fala de angústias comuns a milhares de pessoas, pois contradições e decepções não são exclusividade de quem escreve música ou literatura. Todo ser humano é um ser sensível, até mesmo frágil.

De tudo o que vivemos, sempre fica uma marca, mesmo que não perdurem o desejo e a paixão. Seriam hieróglifos nas cavernas do coração.



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