Por Vitória Schettini
No final do século XIX, o mapa do Sul do Brasil esteve em risco. Onde hoje pulsam cidades fundamentais para a economia catarinense e paranaense, poderia ter se estabelecido a soberania argentina. A disputa envolvia cerca de 30 mil quilômetros quadrados - área equivalente ao território da Bélgica - e foi resolvida por meio de arbitragem internacional em Washington, no episódio conhecido como Questão de Palmas (ou Cuestión de Misiones para os vizinhos).
O impasse vinha de divergências sobre a interpretação dos Tratados de Madri (1750) e Santo Ildefonso (1777). O ponto central era a identificação correta dos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio. Enquanto a Argentina defendia que a fronteira deveria seguir cursos d’água mais a leste, como o rio Chapecó, o Brasil considerava essa possibilidade uma ameaça direta à integridade de sua região Sul. Se a tese argentina tivesse prosperado, o mapa do Brasil seria drasticamente diferente.
UM TERRITÓRIO EM DISPUTA
Ao todo, 83 municípios brasileiros que se conhece hoje não existiriam sob a bandeira verde e amarela. No Oeste de Santa Catarina, 53 cidades teriam sido integradas ao território argentino, incluindo polos como São Miguel do Oeste, Maravilha, Dionísio Cerqueira, Pinhalzinho, São Lourenço do Oeste e Itapiranga. Já no Sudoeste do Paraná, 30 municípios estariam em solo estrangeiro, entre eles pontos estratégicos, como Pato Branco, Francisco Beltrão, Palmas e Clevelândia.
Com as negociações bilaterais fracassadas, os dois países recorreram à arbitragem do então presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland (1837-1908). Para liderar a missão em Washington, o ministro das Relações Exteriores, Quintino Bocaiúva (1836-1912), fez uma escolha que se tornaria histórica: designou José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco (1845-1912).
Região historicamente reivindicada pela Argentina (Crédito: Jackson Lima/Blog de Foz)
A ESTRATÉGIA DE RIO BRANCO
A estratégia de Rio Branco foi um marco de erudição e persistência. Conhecido como “Juca Paranhos”, ele mergulhou em arquivos de Portugal e da Espanha para provar que a cartografia original confirmava a posição brasileira. O resultado foi a monumental “Exposição de Motivos”, uma obra em vários volumes traduzida para o inglês, que apresentava provas geográficas irrefutáveis. Rio Branco não se limitou aos mapas; ele utilizou o princípio jurídico do uti possidetis, demonstrando que a população daquela área já vivia sob leis brasileiras, falava o português e mantinha vínculos culturais e econômicos indissociáveis com o Brasil, o que tornava a administração argentina impraticável.
A arbitragem conduzida por Grover Cleveland também teve um peso simbólico para o sistema internacional da época. Ao aceitar o papel de mediador, o presidente norte-americano reforçou a imagem dos Estados Unidos como uma autoridade equilibrada no continente. Sua decisão favorável ao Brasil, emitida em 05 de fevereiro de 1895, foi considerada exemplar por aplicar rigorosamente documentos históricos e princípios jurídicos, provando que grandes impasses territoriais poderiam ser resolvidos sem o recurso à força militar ou ao derramamento de sangue.

LEGADO E MEMÓRIA
A vitória consolidou Rio Branco como a maior referência da diplomacia nacional, tornando-o o patrono da diplomacia brasileira. Ainda, profissionalizou o Itamaraty, estabelecendo um padrão técnico de negociação que garantiu a integridade do território nacional em disputas posteriores, como a incorporação do Acre, em 1903. Para o jovem governo republicano da época, o desfecho foi uma injeção de confiança, mostrando que o Brasil possuía prestígio internacional e argumentos técnicos suficientes para proteger suas fronteiras.
A importância do árbitro norte-americano foi eternizada na cidade de Clevelândia, no Paraná, cujo nome homenageia o presidente. No Centro da cidade, um obelisco simboliza a soberania garantida. Além do ganho territorial, a incorporação definitiva da região permitiu, no início do século XX, o avanço da colonização de imigrantes europeus, especialmente italianos e alemães. Essas comunidades foram os pilares para o desenvolvimento social, cultural e econômico que define o Oeste catarinense e o Sudoeste paranaense até os dias atuais.
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