Por Vitória Schettini
Durante séculos, a história das relações internacionais foi marcada pela recorrência dos conflitos armados. Embora mecanismos diplomáticos, arbitragens e tratados internacionais já existissem, especialmente ao longo do século XIX e nas Conferências de Haia (1899 e 1907), a guerra ainda era amplamente aceita como um dos instrumentos legítimos da política externa dos Estados para a resolução de disputas territoriais, políticas e econômicas. A devastação provocada pela Primeira Guerra Mundial, entretanto, impulsionou as primeiras tentativas de criar uma instituição permanente capaz de privilegiar a cooperação internacional e a solução pacífica dos conflitos, inaugurando uma nova etapa na governança global.
Criada em 28 de junho de 1919 por meio do Tratado de Versalhes e com vigência iniciada em janeiro de 1920, a Liga das Nações — ou Sociedade das Nações — nasceu inspirada nos ideais do presidente norte-americano Woodrow Wilson e em seus célebres "Quatorze Pontos". Sediada em Genebra, na Suíça, a organização tinha como principal objetivo preservar a paz internacional por meio da arbitragem de disputas, da mediação diplomática, da aplicação de sanções econômicas e do princípio da segurança coletiva baseada na cooperação entre os Estados.
Desde sua criação, contudo, a instituição enfrentou desafios significativos. Além de estar vinculada ao Tratado de Versalhes, frequentemente caracterizado por diversos autores como uma `paz cartaginesa` em razão da severidade das condições impostas à Alemanha, a Liga foi enfraquecida pela ausência dos Estados Unidos, cujo Congresso recusou a adesão ao pacto, pela exigência de unanimidade em grande parte de suas decisões e pela limitada capacidade de fazer cumprir coletivamente suas resoluções.
A INCAPACIDADE DIANTE DOS CONFLITOS E O FRACASSO DA LIGA
As limitações da Liga das Nações tornaram-se evidentes ao longo da década de 1930. A organização não conseguiu impedir a ocupação japonesa da Manchúria, em 1931, a invasão italiana da Etiópia, em 1935, nem conter a política expansionista da Alemanha nazista. Paralelamente, o enfraquecimento da cooperação internacional foi agravado pela Grande Depressão, pela ascensão de regimes totalitários, pela política de apaziguamento adotada por algumas democracias europeias e pela falta de consenso entre os próprios membros da Liga sobre como responder às sucessivas crises.
A retirada da Alemanha da organização, em 1933, seguida pela expulsão da União Soviética em 1939 após a invasão da Finlândia, simbolizou o esvaziamento político da instituição. Diante da incapacidade de evitar a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Liga perdeu progressivamente sua relevância, sendo formalmente dissolvida em 1946.
O PROTAGONISMO BRASILEIRO E A SAÍDA DA LIGA DAS NAÇÕES
Enquanto o cenário internacional se deteriorava, o Brasil — membro fundador da Liga das Nações e participante ativo de suas primeiras assembleias — desenvolveu uma estratégia diplomática voltada para ampliar sua projeção internacional. Durante o governo de Artur Bernardes, essa política buscava assegurar ao país um assento permanente no Conselho Executivo da Liga, objetivo que refletia uma tradição diplomática já defendida anteriormente por figuras como Rui Barbosa e baseada na ideia de que o Brasil poderia representar os interesses da América Latina nas instâncias decisórias da organização.
No contexto da discussão sobre a reforma do Conselho Executivo, o governo brasileiro se opôs, em março de 1926, à proposta de admissão da Alemanha como membro permanente. A decisão estava diretamente relacionada à defesa da ampliação da representação permanente de países latino-americanos e à expectativa de que o Brasil pudesse ocupar esse espaço, e não simplesmente à oposição ao ingresso alemão.
A estratégia, contudo, acabou isolando diplomaticamente o país ao contrariar os interesses das principais potências europeias. Sem obter apoio suficiente para suas reivindicações e diante do desgaste político provocado pelo impasse, o governo brasileiro anunciou sua retirada da Liga das Nações em 12 de junho de 1926.
O IMPACTO PARA A AMÉRICA LATINA
A saída do Brasil reduziu a influência latino-americana dentro da Liga das Nações e evidenciou as dificuldades enfrentadas pelos países da região para ampliar sua participação nas decisões da política internacional. O episódio também revelou os limites da estrutura institucional da Liga, fortemente influenciada pelas grandes potências europeias, e contribuiu para o debate sobre a necessidade de reformas na governança internacional. O Brasil permaneceu afastado da organização até sua extinção, em 1946.
Em Genebra, representantes do Conselho da Sociedade das Nações debatem os rumos da diplomacia internacional do período entre guerras ao redor de sua histórica mesa curva (Arquivos da Sociedade das Nações/ONU Genebra)
DAS LIMITAÇÕES DA LIGA AO NASCIMENTO DA ONU
As dificuldades enfrentadas pela Liga das Nações levaram as potências aliadas, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, a repensarem o sistema internacional de segurança coletiva. Sob a liderança do presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, que popularizou a expressão "Nações Unidas" em 1942, uma série de conferências definiu a arquitetura da futura organização internacional.
Entre os principais marcos desse processo destacam-se a Conferência de Dumbarton Oaks, em 1944, responsável por elaborar a estrutura institucional da nova entidade, e a Conferência de Yalta, em 1945, na qual Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido, China e França foram definidos como membros permanentes do futuro Conselho de Segurança, com direito de veto.
O processo resultou na Conferência de São Francisco, realizada entre abril e junho de 1945, quando cinquenta países assinaram a Carta das Nações Unidas. A ONU entrou oficialmente em vigor em 24 de outubro daquele ano. Ao incorporar as lições deixadas pela experiência da Liga das Nações, a nova organização buscou fortalecer os mecanismos de segurança coletiva, concentrando no Conselho de Segurança a responsabilidade principal pela manutenção da paz internacional.
A Carta da ONU também previu instrumentos para ações coletivas em casos de ameaça à paz, enquanto as operações de manutenção da paz ("peacekeeping"), desenvolvidas posteriormente a partir de 1948, passaram a complementar esses mecanismos na prática. Além disso, a ONU herdou parte da estrutura institucional e dos arquivos da antiga Liga das Nações, consolidando um novo modelo de cooperação internacional que permanece como referência na governança global contemporânea.
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