Por Vitória Schettini
O chamado “tarifaço” de 2026 entre Brasil e Estados Unidos provocou uma forte tensão na relação comercial entre os dois países, mas um novo movimento diplomático abriu caminho para a retomada das negociações. Após uma conversa telefônica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente norte-americano Donald Trump, realizada em 21 de agosto, os governos concordaram em reabrir o diálogo sobre as sobretaxas impostas a produtos brasileiros. A primeira reunião técnica dessa nova etapa está marcada para 31 de agosto e deverá discutir a ampliação das isenções e, posteriormente, a possível reversão das tarifas.
As medidas adotadas pelos Estados Unidos elevaram as tarifas sobre diversos produtos brasileiros. Em alguns casos, uma sobretaxa de 25% foi aplicada a itens como ferro, aço, vestuário, calçados, açúcar, etanol, produtos farmacêuticos e máquinas agrícolas. Com a incidência de uma tarifa adicional de 12,5% em determinados produtos, a carga total pode chegar a 37,5%. Segundo as estimativas apresentadas pelo governo brasileiro, as medidas atingem aproximadamente US$ 6,6 bilhões em exportações do país.
Washington afirma que as tarifas estão relacionadas a uma série de preocupações comerciais e políticas. Entre as justificativas apresentadas estão práticas consideradas restritivas ao comércio, questões ambientais, incluindo o desmatamento, além de preocupações relacionadas à propriedade intelectual, ao trabalho forçado e à existência de acordos preferenciais. O governo brasileiro, por sua vez, contesta os argumentos e considera as medidas injustificadas.
A retomada do diálogo ocorreu depois de uma ligação de cerca de uma hora e vinte minutos entre Lula e Trump. Segundo o governo brasileiro, a conversa foi cordial e permitiu a abertura de um novo canal de negociação. Lula defendeu que as tarifas prejudicam não apenas as exportações brasileiras, mas também os interesses econômicos dos próprios Estados Unidos. Trump, por sua vez, concordou com a retomada dos contatos entre as equipes dos dois países.
A primeira rodada técnica está prevista para 31 de agosto, em reunião virtual entre o ministro Márcio Elias Rosa, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos. A estratégia brasileira será inicialmente buscar a ampliação da lista de produtos livres das sobretaxas. Em uma etapa posterior, o governo pretende negociar a reversão das medidas que permanecem em vigor.
Desde o anúncio das tarifas, o governo brasileiro afirma ter realizado mais de 30 contatos com autoridades norte-americanas, incluindo conversas com o secretário de Estado Marco Rubio e com Greer. Paralelamente às tentativas de negociação, Lula chegou a mencionar a possibilidade de recorrer à Lei da Reciprocidade, mecanismo que permitiria ao Brasil adotar medidas comerciais contra os Estados Unidos caso as barreiras fossem mantidas.
A disputa também provocou embates no cenário político brasileiro. Enquanto integrantes da oposição criticam a condução do governo nas negociações, a administração Lula sustenta que a decisão norte-americana possui componentes políticos e ideológicos. O conflito, portanto, ultrapassou a esfera comercial e passou a ocupar espaço relevante na agenda diplomática dos dois países.
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