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Vieses e consensos | O conto da meritocracia, o ressentimento da classe média e o futuro das cotas

Por: Ralf Zimmer Junior
12/04/2021 12:33
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Transparência Criciúma
Divulgação

A globalização trouxe a reboque, como uma espécie de mantra, que cada um pode chegar aonde sonhe desde que trabalhe duro e tenha talento.

O problema dessa retórica é que o acaso e o talento são arbitrários por diversas razões, e não raro, ainda que com trabalho duro, não significam passaporte para uma ascensão social.

Os locais de maior destaque na sociedade são muito limitados, e uma competição insana em busca de credenciais para se sentir e realmente estar em postos que significam “vencer na vida” tem causado a corrosão do sentimento de comunidade e solidariedade. Mais que isso, tem sido a causa do ressentimento daqueles que por algum infortúnio ou por escolha de uma vida mais simples mesmo não alcancem ao estrelato imposto pela sociedade pós-moderna como pressuposto inarredável para uma vida digna a ser vivida.

Nessa ordem de ideias, medidas para mitigar as dificuldades de grupos mais vulneráveis historicamente tem causado um sentimento de desprezo em grande parcela da população, que não se enquadra nesses grupos tidos por vulneráveis, mas, que também, tem encontrado barreiras instransponíveis para subir na vida.

Como aponta o professor mais dileto de Harward, Dr. Sandell, a era da meritocracia desnudou a classe trabalhadora, pois se todos podem alcançar o sucesso com seu esforço e talento fica explícito que quem não alcançar é o único responsável pelo seu fracasso, e, isso, corrói a autoestima, o senso de comunidade e de pertencimento, pois, separa as pessoas entre “os vencedores” e a “os perdedores”. Estigmatiza, agride e desconstrói a dignidade pessoal, logo desconstrói o amalgama de solidariedade necessário para manter uma sociedade minimamente saudável.

Aponta Sandell que o cidadão branco e pobre dos Estados Unidos nutria uma espécie de autoestima quando olhava para o lado e via a comunidade LGBTQS, imigrantes e os negros em piores credenciais sociais que eles, e, que ao ver recentemente esses grupos gozarem de medidas de inserção social fomentadas pelos governos passaram a se sentir traídos, como se a “fila do sucesso e prestígio tivesse sido furada”.

Ocorre que as cotas, idealizadas pelo presidente Kennedy, tinham como premissa permitir que populações à margem de carreiras profissionais pudessem acessá-las numa geração (inserta na política de cotas), para que a geração seguinte (já sem as cotas) tivesse identificação, ícones “de sua gente” em postos de trabalho antes reservados apenas a brancos puritanos.

A discussão das cotas no Brasil iniciada com mais vigor no início dos anos 2000 tem causado, tal qual nos EUA, um ressentimento dos vulneráveis sui generis não enquadráveis legalmente em grupos tidos por vulneráveis efetivamente.

O ponto de virada dessa onda de ressentimento no intermeio de buscas quiçá sinceras de redução de segregações informais seculares, perpassa por uma mudança cultural de verdadeira e necessária valorização de todo tipo de trabalho.

Sintomático que os filhos da nossa classe média se sentem melindrados de serem vistos como “perdedores” se trabalharem em serviço braçal em suas cidades natais, pelo que muitos preferem assim levar a vida como imigrantes ilegais a milhas de casa para não sofrer os estigmas que sofreriam ao lado “dos seus”.

Para melhorar esse “estado de coisas”, Sandell aponta para uma necessária introdução de aleatoriedade na seleção de postos que credenciam pessoas a “serem possíveis vencedores”, sobretudo, para reduzir a importância de ditas “credenciais”, o que por consectário reduziria o ressentimento daqueles que não à alcançam, e por via de consequência passaríamos a valorizar um pouco menos o “vencer na vida na concepção febril da sociedade” e valorizarmos a dignidade de outros trabalhos mais simples sob a óptica da atual sociedade estigmatizante.

Assim, seguindo a trilha de Sandell, ao invés de reservar cinco por cento das vagas de uma universidade para as cotas a determinados grupos, poderíamos selecionar, por exemplo, mais cinco por cento para quem quisesse concorrer aleatoriamente a um sorteio, deixando para a vida acadêmica peneirar quem eventualmente não tenha a mínima condição de ir adiante.

Em outras palavras, trazer a aleatoriedade para dentro dos processos seletivos é recordar que a vida é cercada de arbitrariedades e acasos que não se comprazem com a paranoia recente de se buscar controlar o incontrolável, mitigando assim o “padrão de sucesso” construído de forma exagerada em nossa sociedade, para que tenhamos mais atenção à dignidade de toda a espécie de trabalho, logo uma sociedade quiçá mais solidária e feliz que temos hoje.


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